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"É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo". Clarice Lispector

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setembro 02, 2012

A Língua - Rosana Dias



Conta-se que certa vez um gadjo, rico, ofereceu um banquete com comidas especiais. Chamou seu mordomo cigano e ordenou-lhe que fosse ao mercado comprar a melhor iguaria. O gipsye retornou com belo prato. O gadjo removeu o pano e assustado disse: Língua?! 
Este é o prato mais delicioso? O cigano, sem levantar a cabeça, respondeu: A língua é o prato mais delicioso, sim senhor. É com a língua que pedimos água, dizemos "mamãe", fazemos amigos, perdoamos. 
Com a língua reunimos pessoas, dizemos "meu Deus", oramos, cantamos, dizemos "eu te amo". O gadjo, não muito convencido, quis testar a sabedoria do gipsye, e o mandou de volta ao mercado, desta vez para trazer o pior alimento. O cigano gipsye voltou com um lindo prato, coberto por fino tecido. O gadjo, ansioso, retirou o pano para conhecer o pior alimento. Língua, outra vez?!, disse, espantado. Sim, língua, respondeu o cigano. É com a língua que condenamos, separamos, provocamos intrigas e ciúmes, blasfemamos. 
É com ela que expulsamos, isolamos, enganamos nosso irmão, xingamos pai e mãe. Não há nada pior que a língua; não há nada melhor que a língua. Depende do modo que a usamos. Muitos males têm sido causados por uma só palavra ou frase proferida. Diz um ditado que "falar é prata, calar é ouro". Palavras ferem, matam, magoam, semeiam dúvidas, fazem pecar, geram ódio e muitas vezes quem diz o que quer, ouve o que não quer. Uma palavra, uma frase, pode doer mais que a dor física. 
A dor física pode cessar com um medicamento, mas a dor provocada por uma palavra ou frase, muitas vezes nem o tempo apaga, e, quando apagada, costuma deixar cicatrizes. use a lingua somente para transmitir o kambulin,paz e felicidade.

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