"É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo". Clarice Lispector

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janeiro 23, 2017

Consegue ficar parado ouvindo o Bruno Mars? - IMPOSSÍVEL


Music - 24K Magic 

...Known to give the color red the blues 💫



setembro 10, 2016

DESPEDIDA - Martha Medeiros


Existem duas dores de amor:
A primeira é quando a relação termina e a gente,
seguindo amando,
 tem que se acostumar com a ausência do outro,
com a sensação de perda, 
de rejeição e com a falta de perspectiva,
já que ainda estamos tão embrulhados na dor
que não conseguimos ver luz no fim do túnel.
A segunda dor é quando começamos a vislumbrar 
a luz no fim do túnel.


A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços,
a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando esta dor passa, 
começamos um outro ritual de despedida:
a dor de abandonar o amor que sentíamos.
A dor de esvaziar o coração, 
de remover a saudade, 
de ficar livre,
sem sentimento especial por aquela pessoa. 
Dói também…


Na verdade, 
ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir 
se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir,
lembrança de uma época bonita que foi vivida…
Passou a ser um bem de valor inestimável, 
é uma sensação à qual a gente se apega. 
Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, 
voltar a ser alegres e disponíveis,
mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos 
foi caro por muito tempo,
que de certa maneira entranhou-se na gente,
e que só com muito esforço é possível alforriar.


É uma dor mais amena, quase imperceptível.
Talvez, por isso, 
costuma durar mais do que a ‘dor-de-cotovelo’
propriamente dita. 
É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira, 
mas já é outra. 
A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, 
mas interessa o amor que sentíamos por ela,
 aquele amor que nos justificava como seres humanos,
que nos colocava dentro das estatísticas: 
“Eu amo, logo existo”.

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou,
externamente, sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente…
E só então a gente poderá amar, de novo.

Martha Medeiros


agosto 22, 2016

Muita Paz em todos os Corações.


Uma prece é um pouquinho da alma que clama por ajuda ou que reconhece a força divina nos momentos em que passa por uma atribulação ou quando tem o coração cheio de alegria.
A oração nasce, portanto, das condições extremas de fragilidade humana e pode surgir tanto quando há felicidade, como quando há dificuldade.
Uma oração agradece, invoca, reconhece, suplica, louva. E todas as formas de prece, por maior que seja a sua variedade e por mais crenças diferentes que existam, permitem transcender o limite das palavras para entrar na essência real da fé.
O poder das palavras é incontestável e toda a prece é composta por palavras plenas de forte significado. As orações como o Pai- Nosso, cuja a composição segue as fórmulas de um conhecimento espiritual muito profundo, cuja a sabedoria provém de fontes milenares, faz parte do grupo de preces preciosas, que se encontram em todas as crenças bem estruturadas.
Essas preces têm sentido permanente, pois entram na sede do pensamento e ali colocam a sua semente de luz. A esse tipo de influência positiva poucas mentes conseguem fechar-se.
As orações dos salmos estão nesse grupo. Mesmo que uma oração desse tipo seja repetida mecanicamente,o seu poder é tal que concretiza modificações energéticas significativas.
Mas não é só nesta característica que reside a força das orações. O seu poder vai mais longe.
Podemos considerar a prece como o selo que estabelece uma aliança com Deus, fazendo do momento de devoção um ato sagrado, no qual o ser humano adquire o direito de receber um dom divino, caso haja sinceridade nas suas intenções.
Também podemos afirmar que é através da prece que a perfeita comunhão com Deus é alcançada, sendo este o meio pelo qual o amor de Cristo invade a alma.
Essa é a conversão do coração, que altera condições passadas e enche de bênçãos os dias futuros

A VOZ DO SILÊNCIO - MARTHA MEDEIROS



Paula Taitelbaum é uma poeta gaúcha que acaba de lançar seu segundo livro, Sem Vergonha, onde encontrei um poema com apenas dois versos que diz assim: "Pior do que uma voz que cala/É um silêncio que fala". Simples. Rápido. E quanta força. Imediatamente me veio a cabeça situações em que o silêncio me disse verdades terríveis, pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades. Um telefone mudo. Um e-mail que não chega. Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca. Silêncios que falam sobre desinteresse, esquecimento, recusas. Quantas coisas são ditas na quietude, depois de uma discussão. O perdão não vem, nem um beijo, nem uma gargalhada para acabar com o clima de tensão. Só ele permanece imutável, o silêncio, a ante-sala do fim. É mil vezes preferível uma voz que diga coisas que a gente não quer ouvir, pois ao menos as palavras que são ditas indicam uma tentativa de entendimento. Cordas vocais em funcionamento articulam argumentos, expõem suas queixas, jogam limpo. Já o silêncio arquiteta planos que não são compartilhados. Quando nada é dito, nada fica combinado. Quantas vezes, numa discussão histérica, ouvimos um dos dois gritar: "diz alguma coisa, diz que não me ama mais, mas não fica aí parado me olhando". É o silêncio de um mandando más notícias para o desespero do outro. É claro que há muitas situações em que o silêncio é bem-vindo. Para um cara que trabalha com uma britadeira na rua, o silêncio é um bálsamo. Para a professora de uma creche, o silêncio é um presente. Para os seguranças dos shows do Sepultura, o silêncio é uma megasena. Mesmo no amor, quando a relação é sólida e madura, o silêncio a dois não incomoda, pois é o silêncio da paz. O único silêncio que perturba é aquele que fala. E fala alto. É quando ninguém bate a nossa porta, não há recados na secretária eletrônica e mesmo assim você entende a mensagem.

Medo de se apaixonar - Carpinejar


Você tem medo de se apaixonar. 
Medo de sofrer o que não está acostumada. 
Medo de se conhecer e esquecer outra vez. 
Medo de sacrificar a amizade. 
Medo de perder a vontade de trabalhar, 
de aguardar que alguma coisa mude de repente, 
de alterar o trajeto para apressar encontros.
 Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. 
Medo da curiosidade, 
de ouvir o nome dele em qualquer conversa. 
Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. 
Medo de se sentir observada em excesso, 
de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente.
 Não suportar ser olhada com esmero e devoção.
Nem os anjos,
 nem Deus aguentam uma reza por mais de duas horas. 
Medo de ser engolida como se fosse líquido, 
de ser beijada como se fosse líquen,
 de ser tragada como se fosse leve. 
Você tem medo de se apaixonar por si mesma
 logo agora que tinha desistido de sua vida. 
Medo de enfrentar a infância,
 o seio que criou para aquecer as mãos quando criança,
 medo de ser a última a vir para a mesa, 
a última a voltar da rua, a última a chorar.
 Você tem medo de se apaixonar 
e não prever o que pode sumir, 
o que pode desaparecer. 
Medo de se roubar para dar a ele, 
de ser roubada e pedir de volta. 
Medo de que ele seja um canalha,
 medo de que seja um poeta,
 medo de que seja amoroso, 
medo de que seja um pilantra, 
incerta do que realmente quer, 
talvez todos em um único homem, 
todos um pouco por dia. 
Medo do imprevisível que foi planejado. 
Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue.
Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. 
O corpo mais lado da fraqueza. 
Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, 
a hora certa para o homem errado.
 Medo de se ultrapassar e se esperar por anos,
 até que você antes disso 
e você depois disso possam se coincidir novamente. 
Medo de largar o tédio
afinal você e o tédio enfim se entendiam. 
Medo de que ele inspire a violência da posse,
 a violência do egoísmo, 
que não queira repartir ele com mais ninguém, 
nem com seu passado. 
Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, 
além dele. 
Medo de que ele seja melhor do que suas respostas,
 pior do que as suas dúvidas. 
Medo de que ele não seja vulgar
 para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, 
que ele se vire para não dormir, 
que ele se acorde ao escutar sua voz. 
Medo de ser sugada como se fosse pólen,
 soprada como se fosse brasa,
 recolhida como se fosse paz. 
Medo de ser destruída, aniquilada, devastada 
e não reclamar da beleza das ruínas. 
Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. 
Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção.
Medo da independência dele,
 de sua algazarra, 
de sua facilidade em fazer amigas. 
Medo de que ele não precise de você. 
Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério 
ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. 
Medo do cheiro dos travesseiros. 
Medo do cheiro das roupas. 
Medo do cheiro nos cabelos. 
Medo de não respirar sem recuar. 
Medo de que o medo de entrar no medo seja maior 
do que o medo de sair do medo. 
Medo de não ser convincente na cama,
 persuasiva no silêncio, carente no fôlego. 
Medo de que a alegria seja apreensão,
 de que o contentamento seja ansiedade. 
Medo de não soltar as pernas das pernas dele. 
Medo de soltar as pernas das pernas dele. 
Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. 
Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. 
Medo da perfeição que não interessa. 
Medo de machucar, ferir, agredir 
para não ser machucada, ferida, agredida. 
Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. 
Medo de não mastigar a felicidade por respeito. 
Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la.
Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. 
Medo de interromper o que recém iniciou,
 de começar o que terminou.
 Medo de faltar as aulas e mentir como foram. 
Medo do aniversário sem ele por perto, 
dos bares e das baladas sem ele por perto,
 do convívio sem alguém para se mostrar. 
Medo de enlouquecer sozinha. 
Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha.
Você tem medo de já estar apaixonada.

Trecho de um discurso - Viana Moog



(...) As épocas que desejo, as épocas que venero, as civilizações que admiro são aquelas em que o lado bom da natureza humana pode desdobrar-se em sua plenitude. São aquelas civilizações que criam para o homem todas as possibilidades de ele provar que foi feito à imagem de Deus, e não aquelas que só lhe exploram a cobiça, a paixão do poder, a hipocrisia, a fraqueza, o medo, a pusilanimidade. Entre umas e outras nenhuma natureza bem dotada pode hesitar. Só se comprazem com as últimas as naturezas enfermiças, os ressentidos, os pintores de cartões postais, os escribas, os pequenos artistas malogrados, os perdidos para a capacidade de amar e de admirar, que buscam no nivelamento compulsório e disciplinar da natureza humana o corretivo das desigualdades naturais que lhes pesam como opróbrio e injustiça.

Pertenço, julgo pertencer, aos que não perderam de todo a capacidade de amar e admirar. Conheço as minhas possibilidades, conheço também as minhas limitações. Não me magnifico daquelas, não me desespero destas. Não trago o fardo pesado de ódios e rancores. Já hoje, não sei de ninguém a quem não possa apertar fraternalmente a mão.

agosto 19, 2016

O AMOR NO COLO - Fabrício Carpineja



A dor não pede compreensão, pede respeito.
Não abandonar a cadeira, ficar sentado na posição em que ela é mais aguda.
Vejo homens que não têm coragem de terminar o relacionamento.
Que não esclarecem que acabou.
Que deixam que os outros entendam o que desejam entender.
Que preferem fugir do barraco e do abraço esmurrado.
Saem de mansinho, explicando que é melhor assim: não falar nada, não explicar, acontece com todo mundo.

Encostam a porta de sua casa (não trancam) e partem para outra vida.
Não é melhor assim. Não tem como abafar os ruídos do choro.
O corpo não é um travesseiro. Seca com os soluços.

Não é melhor assim. Haverá gritos, disputa, danos.
É como beber um remédio, sem empurrar a colher para longe ou moldar cara feia.
É engolir o gosto ruim da boca, agüentar o desgosto da falta do beijo.
Será idiota recitar Vinicius de Moraes: "que seja infinito enquanto dure".
A despedida não é lugar para poesia.

Haverá uma estranha compaixão pelo passado, a língua recolhendo as lágrimas, o rosto pelo avesso.
Haverá sua mulher batendo em seu peito, perguntando: "Por que fez isso comigo?"
Haverá a indignação como última esperança.
Haverá a hesitação entre consolar e brigar, entre devolver o corte e amparar.

Vejo homens que somente encontram força para seduzir uma mulher, não para se distanciar dela.
Para iniciar uma história, não têm medo, não têm receio de falar.
Para encerrar, são evasivos, oblíquos, falsos. Mandam mensageiros.
Não recolhem seus pertences na hora. Voltarão um novo dia para buscar suas coisas.
Não toleram resolver o desespero e datar as lembranças.
Guardam a risada histérica para o domingo longe dali.

Mas estar ali é o que o homem precisa. Não virar as costas.
Fechar uma história é manter a dignidade de um rosto levantado, ouvindo o que não se quer escutar. Espantado com o que se tornou para aquela mulher que amava.
Porque aquilo que ela diz também é verdade. Mesmo que seja desonesto.
Desgraçadamente, há mais desertores do que homens no mundo.
Deveriam olhar fora de si. Observar, por exemplo, a dor de uma mãe que perde seu filho no parto.

O médico colocará o filho morto no colo materno. É cruel e - ao mesmo tempo - necessário. Para que compreenda que ele morreu. Para que ela o veja e desista de procurá-lo. Para que ela perceba que os nove meses não foram invenção, que a gestação não foi loucura. Que o pequeno realmente existiu, que as contrações realmente existiram, que ela tentou trazê-lo à tona. Que possa se afastar da promessa de uma vida, imaginar seu cheiro e batizar seu rosto por um instante.
Descobrir a insuportável e delicada memória que teve um fim, não um final feliz.
Ainda que a dor arrebente, ainda é melhor assim.


Aí Tem - Martha Medeiros



As coisas são como são. Se alguém diz que está calmo, é porque está calmo. Se alguém diz que te ama, é porque te ama. Se alguém diz que não vai poder sair à noite porque precisa estudar, está explicado. Mas a gente não escuta só as palavras: a gente ouve também os sinais.

Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava frio como um iglu. Você falava, falava, e ele quieto, monossilábico. Até que você o coloca contra a parede: "O que é que está havendo?". "Nada, tô na minha, só isso." Só isso???? Aí tem.

Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava exaltado demais. Não parava de tagarelar. Um entusiasmo fora do comum. Você pergunta à queima-roupa: "Que alegria é essa?" "Ué, tô feliz, só isso". Só isso????? Aí tem.

Os tais sinais. Ansiedade fora de hora, mudez estranha, olhar perdido, mudança no jeito de se vestir, olheiras e bocejos de quem dormiu pouco à noite: aí tem. Somos doutoras em traduzir gestos, silêncios e atitudes incomuns. Se ele está calado demais, é porque está pensando na melhor maneira de nos dar uma má notícia. Se está esfuziante demais, é porque andou rolando novidades que você não está sabendo. Se ele está carinhoso demais, é porque não quer que você perceba que está com a cabeça em outra. Se manda flores, é porque está querendo que a gente facilite alguma coisa pra ele. Se vai viajar com os amigos, é porque não nos ama mais. Se parou de fumar, é uma promessa que ele não contou pra você. Enfim, o cara não pode respirar diferente que aí tem.

Às vezes não tem. O cara pode estar calado porque leu um troço que mexeu com ele, ou está falando muito porque o time dele venceu. Pode estar mais carinhoso porque conversou sobre isso na terapia e pode estar mais produzido porque teve um aumento de salário. Por que tudo o que eles fazem tem que ser um recado pra gente?

É uma generalização, mas as mulheres costumam ser mais inseguras que os homens no quesito relacionamento. Qualquer mudança de rota nos deixa em estado de alerta, qualquer outra mulher que cruze o caminho dele pode ser uma concorrente, qualquer rispidez não justificada pode ser um cartão amarelo. O que ele diz importa menos do que sua conduta. Pobres homens. Se não estão babando por nós, se tiram o dia para meditar ou para assistir um jogo de vôlei na tevê sem avisar com duas semanas de antecedência, danou-se: aí tem.

Martha Medeiros

maio 05, 2016

Martha Medeiros


Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos,
 que pega mal sofrer. 
Pois é, pega mal. 
Melhor sair pra balada, 
melhor forçar um sorriso,
 melhor dizer que está tudo bem,
 melhor desamarrar a cara.
 “Não quero te ver triste assim”,
 sussurrava Roberto Carlos em meio à outra música. 
Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato.
 Os esforços não são para compreendê-la,
 e sim, para disfarçá-la, sufocá-la. 
Ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, 
de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, 
e que desconfia de quem está calado demais. 
Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), 
mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. 

Em tempo: na maioria das vezes,
 é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.

abril 28, 2016

Caio Fernando Abreu


Não guardo nem dinheiro, vou guardar rancor e mágoas?
Descobri coisas deliciosas a meu respeito, como por exemplo, 
uma pessoa superficial e de mentira jamais aguentaria ficar perto de mim

Eles me rotularam, me analisaram,
 jogaram mil complexos em cima de mim, problemas,
 introjeções, fugas, neuroses, recalques, traumas...
Nenhuma luta haverá jamais de me embrutecer, 
nenhum cotidiano será tão pesado a ponto de me esmagar, 
nenhuma carga me fará baixar a cabeça. 
Quero ser diferente.
 Eu sou. 
E se não for, me farei.
Então vem, amor. 
Me completa. 
Me mostre que se importa.
 Cuida de mim. 
Me beije e me envolva nos teus braços.

(...) me poupe do trabalho de adivinhar seus pensamentos.
 Diga que me quer apenas quando for verdade. 
Eu não vou te pedir nada. 
Não vou te cobrar aquilo que você não pode me dar.

Não é que pensei outra coisa de gente grande?
 Esta é assim: 
tudo que parece meio bobo é sempre muito bonito, 
porque não tem complicação.
 Coisa simples é lindo. 
E existe muito pouco.

Odeio circos. 
Aliás odeio tudo que me encanta e depois vai embora.

É hora de fazer tudo o que sempre quis. 
E é maravilhoso ver que tudo o que sempre quis é simples, 
belo, acessível, fácil e do bem.

Hoje acordei pra viver, levantar e seguir em frente.

Depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa,
 uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo. 
E que as plantas sentem dor, que nem a gente.

E eu acredito no mecanismo do infinito,
 fazendo com que tudo aconteça na hora exata.

Preciso de segurança, de amor, 
de compreensão, de atenção, 
de alguém que sente comigo e fale: 
"Calma, eu estou com você".



março 02, 2016

Millôr Fernandes.


Incapaz de dominar suas mais mesquinhas paixões,
 sem controle do próprio egoísmo, tolo, 
tonto, sofrido, inseguro e criminoso, 
o homem lança suas derradeiras ambições para a posteridade, 
quando será imantado numa glória a que não assistirá,
 mitificado naquilo que nunca foi. 
E sua ânsia de nobreza é colocada em ser esplêndido em cinzas,
 faustoso em túmulos, 
solenizando a morte com incrível esplendor,
 transformando em cerimônia e pompa toda a estupidez de sua natureza.

fevereiro 28, 2016

PC Siqueira


"Você se cansa de amores incompletos,
 de amores platônicos, 
de falta de amor, 
de excesso disso e daquilo. 
Se cansa do “apesar de”.
 Se cansa do rabo entre as pernas,
 da sensação de estar sendo prejudicado, 
se cansa do “a vida é assim mesmo”.
 Você se cansa de esperar, 
de rezar, de aguardar, de ter esperanças, 
cansa do frio na barriga, 
cansa da falta de sono. Você se cansa da hipocrisia, 
da falsidade, da ameaça constante,
 se cansa da estupidez, da apatia, 
da angústia, da insatisfação, da injustiça, 
do frenesi, da busca impossível 
e infinita de algo que não sabe o que é. 
Se cansa da sensação de não poder parar".

fevereiro 22, 2016

Nelson Rodrigues.


As épocas são mais inteligentes ou menos inteligentes. 
Mais sóbrias ou menos nobres, 
românticas ou cínicas, 
perversas ou heroicas, etc. etc. 
Nos coube por fatalidade uma das épocas débeis mentais
 e das mais espantosas da história. 
Há uma debilidade mental difusa, 
volatizada, atmosférica. 
Nós a respiramos.
 Isso aqui e em todos os idiomas. 
É um fenômeno internacional tão nítido,
 tão profundo, que não cabe nenhuma dúvida,
 não cabe nenhum sofisma.
E acontece, então, esta coisa nunca vista: 
Todos agem e reagem como imbecis. 
Não que o sejam, absolutamente. 
Muitos são inteligentes, sábios, clarividentes; 
e tem um nobilíssimo caráter,
 e uma fina sensibilidade,
 e uma alma de superior qualidade. 
Mas num mundo de débeis mentais, 
temos de imitá-los. 
Não sei se me entendem.
 Mas para viver, para sobreviver,
 para coexistir com os demais, 
o sujeito precisa ir ao fundo do quintal 
e lá enterrar todo o seu íntimo tesouro.

fevereiro 01, 2016

Parábola - O sapo - Luciano Pereira


Se você puser um sapo numa panela, 
enchê-la com água e a colocar no fogo, 
vai perceber uma coisa interessante: 
O sapo se ajusta à temperatura da água, 
e permanece lá dentro. 
E continuaria se ajustando, 
quanto mais subisse a temperatura. 
Quando a água estivesse perto do ponto de fervura,
 e o sapo tentasse saltar para fora,
 não conseguiria, 
porque estaria muito cansado devido aos ajustes que teve que fazer. 
Alguns diriam que o que matou o sapo foi a água fervendo...
O que o matou, na verdade, 
foi a sua incapacidade de decidir quando pular fora.
 Pare de se ajustar à pessoas erradas, 
relacionamentos abusivos,
 amizades parasíticas,
 trabalhos fim-de-carreira 
e tantas situações que vivem te "esquentando".
 Quando você já fez tudo o que pôde, 
e ainda tem que viver fazendo mais, 
você corre o risco de morrer tentando, 
e não alcançar nada.
Saia fora disso. 

janeiro 20, 2015

VOCÊ SERÁ (OU É???) "corno", a menos que: - Arnaldo Jabor



- Nunca deixe uma "mulher moderna" insegura. Antigamente elas choravam. Hoje, elas simplesmente traem, sem dó nem piedade.

- Não ache que ela tem poderes "adivinhatórios". Ela tem de saber - da sua boca - o quanto você gosta dela. Qualquer dúvida neste sentido poderá levar às conseqüências expostas acima.

- Não ache que é normal sair com os amigos (seja pra beber, pra jogar futebol...) mais do que duas vezes por semana, três vezes então é assinar atestado de "chifrudo". As "mulheres modernas" dificilmente andam implicando com isso, entretanto elas são categoricamente "cheias de amor pra dar" e precisam da "presença masculina". Se não for a sua meu amigo... bem...

- Quando disser que vai ligar, ligue, senão o risco dela ligar pra aquele ex bom de cama é grandessíssimo.

- Satisfaça-a sexualmente. Mas não finja satisfazê-la. As "mulheres modernas" têm um pique absurdo com relação ao sexo e, principalmente dos 20 aos 38 anos, elas pensam em - e querem - fazer sexo todos os dias (pasmem, mas é a pura verdade)...bom, nem precisa dizer que se não for com você...

- Lhe dê atenção. Mas principalmente faça com que ela perceba isso. Garanhões mau (ou bem) intencionados sempre existem, e estes quando querem são peritos em levar uma mulher às nuvens. Então, leve-a você, afinal, ela é sua ou não é????

Nem pense em provocar "ciuminhos" vãos. Como pude constatar, mulher insegura é uma máquina colocadora de chifres.

- Em hipótese alguma deixe-a desconfiar do fato de você estar saindo com outra. Essa mera suposição da parte delas dá ensejo ao um "chifre" tão estrondoso que quando você acordar, meu amigo, já existirá alguém MUITO MAIS "comedor" do que você...só que o prato principal, bem...dessa vez é a SUA mulher.

Sabe aquele bonitão que, você sabe, sairia com a sua mulher a qualquer hora. Bem... de repente a recíproca também pode ser verdadeira. Basta ela, só por um segundo, achar que você merece...Quando você reparar... já foi.

- Tente estar menos "cansado". A "mulher moderna" também trabalhou o dia inteiro e, provavelmente, ainda tem fôlego para - como diziam os homens de antigamente - "dar uma", para depois, virar pro lado e simplesmente dormir.

- Volte a fazer coisas do começo da relação. Se quando começaram a sair viviam se cruzando em "baladas", "se pegando" em lugares inusitados, trocavam e-mails ou telefonemas picantes, a chance dela gostar disso é muito grande, e a de sentir falta disso então é imensa. A "mulher moderna" não pode sentir falta dessas coisas...senão...

Bem amigos, aplica-se, finalmente, o tão famoso jargão "quem não dá assistência, abre concorrência".

Deste modo, se você está ao lado de uma mulher de quem realmente gosta e tem plena consciência de que, atualmente o mercado não está pra peixe (falemos de qualidade), pense bem antes de dar alguma dessas "mancadas"... proteja-a, ame-a, e, principalmente, faça-a saber disso.

Ela vai pensar milhões de vezes antes de dar bola pra aquele "bonitão" que vive enchendo-a de olhares... e vai continuar, sem dúvidas, olhando só pra você!

julho 06, 2014

A inutilidade e o amor - Padre Fábio de Mello


Ter que ser útil pra alguém é uma coisa muito cansativa. É interessante você saber fazer as coisas, mas acredito que a utilidade é um território muito perigoso porque, muitas vezes, a gente acha que o outro gosta da gente, mas não. Ele está interessado naquilo que a gente faz por ele. E é por isso que a velhice é esse tempo em que passa a utilidade e aí fica só o seu significado como pessoa. Eu acho que é um momento que a gente purifica, né? É o momento em que a gente vai ter a oportunidade de saber quem nos ama de verdade.

Porque só nos ama, só vai ficar até o fim, aquele que, depois da nossa utilidade, descobrir o nosso significado. Por isso eu sempre peço a Deus para poder envelhecer ao lado das pessoas que me amem. Aquelas pessoas que possam me proporcionar a tranqüilidade de ser inútil, mas ao mesmo tempo, sem perder o valor.

Quero ter ao meu lado alguém que saiba acolher a minha inutilidade. Alguém que olhe pra mim assim, que possa saber que eu não servirei pra muita coisa, mas que continuarei tendo meu valor.

Porque a vida é assim, fique esperto, viu? Se você quiser saber se o outro te ama de verdade é só identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade. Quer saber se você ama alguém? Pergunte a si mesmo: quem nessa vida já pode ficar inútil pra você sem que você sinta o desejo de jogá-lo fora?

É assim que descobrimos o significado do amor. Só o amor nos dá condições de cuidar do outro até o fim. Por isso eu digo: feliz aquele que tem ao final da vida, a graça de ser olhado nos olhos e ouvir do outro: "você não serve pra nada, mas eu não sei viver sem você".



junho 22, 2014

Elogio ao Amor - Miguel Esteves Cardoso



Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.

Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido....Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.

A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.

Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira.

E valê-la também.


agosto 07, 2013

AFINIDADE - Artur da Távola


A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, 
delicado e penetrante dos sentimentos. 
E o mais independente. 
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, 
as distâncias, as impossibilidades. 
Quando há afinidade, qualquer reencontro 
retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto 
no exato ponto em que foi interrompido. 

Afinidade é não haver tempo mediando a vida. 
É uma vitória do adivinhado sobre o real. 
Do subjetivo para o objetivo. 
Do permanente sobre o passageiro. 
Do básico sobre o superficial. 

Ter afinidade é muito raro. 
Mas quando existe não precisa de códigos 
verbais para se manifestar. 
Existia antes do conhecimento, 
irradia durante e permanece depois que 
as pessoas deixaram de estar juntas. 
O que você tem dificuldade de expressar 
a um não afim, sai simples e claro diante 
de alguém com quem você tem afinidade. 

Afinidade é ficar longe pensando parecido a 
respeito dos mesmos fatos que impressionam comovem ou mobilizam. 
É ficar conversando sem trocar palavras. 
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento...

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra, 
nem sentir para, nem sentir por. 
Quanta gente ama loucamente, 
mas sente contra o ser amado. 
Quantos amam e sentem para o ser amado, 
não para eles próprios. 

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. 
É olhar e perceber. 
É mais calar do que falar, ou, quando falar, 
jamais explicar: apenas afirmar. 

Afinidade é jamais sentir por. 
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo. 
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar. 
Compreende sem ocupar o lugar do outro. 
Aceita para poder questionar. 
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar. 

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças. 
É conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas, 
quanto das impossibilidades vividas. 

Afinidade é retomar a relação no ponto em que 
parou sem lamentar o tempo de separação. 
Porque tempo e separação nunca existiram. 
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida, 
para que a maturação comum pudesse se dar. 
E para que cada pessoa pudesse e possa ser, 
cada vez mais a expressão do outro sob a 
forma ampliada do eu individual aprimorado.