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"É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo". Clarice Lispector

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outubro 20, 2012

A vida de Cadu


Era uma vez uma leoa que vivia normalmente na savana.
Caçava, dormia e procriava como qualquer outra.
Tinha uma vida normal, e aquilo era tudo.
Um dia ficou grávida e no 1° mês de gravidez foi capturada por um caçador e vendida para um circo.
Sua vida mudou completamente, agora ficava presa dentro de uma gaiola mínima, comia sempre a mesma refeição nos mesmos horários.
Um treinador tentou adestra – lá, mas logo viu que a leoa estava grávida, e que seria melhor esperar-la dar a cria, pois assim não comprometeria a gravidez e ele ganharia mais leões pelo preço de um.

Assim foi até o dia do nascimento.
Seis filhotes haviam nascido, mas com o tempo somente um havia restado, tanto a mãe quanto os outros irmãos não conseguiram suportar o péssimo tratamento dado pelo circo.
O pequeno leão fora nomeado Cadu.
Cadu foi crescendo e se desenvolvendo dentro da mesma gaiola até atingir a idade perfeita para o inicio de seu adestramento.
Cada vez que Cadu realizava uma ação errada o treinador o chicoteava ou o deixava sem comida, e cada vez que Cadu realizava uma ação correta ganhava um pedaço a mais de carne, ou simplesmente não era chicoteado.

Depois de algumas seções de adestramento, Cadu estava pronto para se apresentar para o publico.
Porem no dia de sua 1° apresentação Cadu ficara desesperado com o publico, eles gritavam seu nome, luzes e mais luzes piscavam, bolas de fogo surgiam a sua frente, um verdadeiro horror.
Na primeira ordem dada pelo adestrador, Cadu não obedecera e recebera um grito de repreensão, na segunda ordem tomou uma chicotada bem na pata, e na terceira ordem, por não ter obedecido tomou uma chicotada bem na face.
Irado, Cadu atacou o adestrador e retalhou-lhe a face, a platéia corria desesperada e após ter sentido uma picada, Cadu desmaiou.
Quando acordou sentiu uma forte dor nas patas, suas garras haviam sido arrancadas.
Como punição, ficou quase três dias sem comida e no escuro, não que Cadu tivesse visto a luz do sol antes, mas dessa vez, não via luz alguma por três dias.

Cadu aprendera a lição, nunca mais atacou o treinador, obedecia sempre e morria de medo cada vez que realizava uma ação errada.
Um dia Cadu ficou muito irritado e atacou novamente o treinador.
Como punição seu caninos foram arrancados, mas com o tempo se acostumou a comer sem sentir dor.
A vida de Cadu percorreu assim, ficava sempre preso na mesma gaiola desde o nascimento, nunca via a luz do sol, sempre comia a mesma comida, não se relacionava com ninguém a não ser com o adestrador e com o publico, para ele aquilo era tudo, não existia nada melhor ou pior do que aquilo, sua mente fora condicionada e prensada naquela única realidade. Uma coisa ruim era levar chicotada e ficar sem comida e sem luz, uma coisa boa era ganhar um pedaço extra de comida.
Sempre assim até sua maior idade, nada alem disso acontecia, nada.
Um dia Cadu percebeu que alguma coisa estava estranha.
Pessoas vestindo uma jaqueta preta e calças compridas haviam invadido o circo, eles discutiam com as pessoas do circo e com o adestrador, eles gritavam e gritavam, cada vez mais alto.
Um dos homens vestindo uma jaqueta pegou uma algema e prendeu o adestrador e as outras pessoas do circo.
Cadu não entendia nada, apenas se escondia no canto na gaiola.
Um grande caminhão-guindaste surgia e enquanto o caminhão vinha os homens de jaqueta tratavam de cobrir a gaiola onde Cadu estava e nunca saia, a não ser para se apresentar, com um grande e denso manto escuro que impedia que a luz entrasse, Cadu só via sombras.
Aos poucos Cadu sentiu que sua gaiola estava sento levantada, ela balançava muito. Era o caminhão- guindaste transportando a gaiola de Cadu para um zoológico.
Após o transporte, o caminhão-guindaste depositou lentamente a gaiola de Cadu dentro de uma enorme gaiola que imitava algum lugar da selva, tinha arvores, pedras, terra, grama e cachoeiras artificiais.
Cadu só escutava o barulho e via as sombras.
A partir de agora os homens que o maltratavam viveriam em celas e Cadu viveria “livre”.
Os homens de jaqueta preta lentamente tiravam o manto escuro que cobria a gaiola.
Cadu viu pela primeira vez a luz do sol, no inicio apenas percebera um enorme clarão que aos poucos ia diminuindo e dando forma as coisas.
Viu através das grades da gaiola as arvores e as pedras.
Os homens de jaqueta preta abriram a gaiola de Cadu e se afastaram depressa.
Cadu não sabia o que fazer, aquilo era totalmente estranho para sua cabeça. No inicio hesitou em sair da gaiola.
Com o tempo foi saindo bem devagar de dentro da gaiola, quando se deu por si estava completamente fora da gaiola.
Seu coração batia forte e desesperado como nunca.
Cadu, o leão imponente e deformado pelas péssimas condições de sua vida, se viu pisando na grama pela 1° vez em sua via.
Saiu correndo disparado, a areia entrava por entre seus dedos disformes e sem garras.
Estava correndo e nem acreditava que podia fazer isso, no começo sentiu dificuldade para se equilibrar, mas depois percebeu que sua natureza o permitia correr.
Respirava pela 1° vez o ar “puro”, se jogou na grama e rolou para todos os lados, levantou e tornou a correr, sentiu novamente o vento passar por sua juba embaraçada.
Tentou subir na arvore, caiu, mas estava adorando tudo.
Aquilo era o paraíso, a melhor sensação de sua vida, nada poderia ser melhor que aquilo.
Cadu parou e correr, olhou para o sol e para tudo a sua volta,deu um grande e profundo suspiro cambaleou e caiu morto na grama.


PÓS ESCRITO:
Se coloque por um momento no lugar de Cadu.
Talvez, apenas talvez nossa vida seja igual a dele.
Quem sabe nos vivemos presos dentro de uma gaiola sem saber disso e não nos damos conta de que talvez exista um outro mundo totalmente diferente desse que conhecemos, mas que infelizmente não estejamos mais preparados ou nunca mais estaremos preparados para vive-lo.
E que esse mundo totalmente novo e maravilhoso no qual não estamos mais preparados para viver seja apenas uma copia do verdadeiro mundo do qual nos sempre devêssemos pertencer.
Se isso for verdade toda a noção de liberdade esta perdida. 

“Liberdade significa perder todas as esperanças, mesmo que tardiamente” 

P.S.: Recebi da Neuzinha por email.

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