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"É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo". Clarice Lispector

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maio 06, 2012

Aquilo por que vivi - Bertrand Russel



Três paixões, simples, mas irresistivelmente fortes, governaram-me a vida:
o anseio de amor,
a busca do conhecimento e
a dolorosa piedade pelo sofrimento da humanidade.

 Busquei, primeiro, o amor, porque ele produz êxtase - um êxtase tão grande que, não raro, eu sacrificava todo o resto da minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Ambicionava-o, ainda, porque o amor nos completa, liberta da solidão - essa solidão terrível através da qual nossa trêmula percepção observa, além dos limites do mundo, esse abismo frio e exânime. Busquei-o, finalmente, porque vi na união do amor, numa miniatura mística, algo que prefigurava a visão que os santos e os poetas imaginavam. Eis o que busquei e, embora isso possa parecer demasiado bom para a vida humana, foi isso que - afinal - encontrei.
Minha amada, minha completude em amor,sexo e conhecimento.

Com paixão igual, busquei o conhecimento. Eu queria compreender o coração dos homens. Gostaria de saber por que cintilam as estrelas. E procurei apreender a força pitagórica pela qual o número permanece acima do fluxo dos acontecimentos. Um pouco disto, mas não muito, eu o consegui.
Amor e conhecimento, conduzem rumo ao céu.

Mas a piedade sempre me trazia de volta à terra. Ecos de gritos de dor ecoavam em meu coração.
Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desvalidos a constituirem-se num fardo para seus filhos, e todo o mundo de solidão, pobreza e sofrimentos, convertem numa irrisão o que deveria ser a vida humana. Anseio por aliviar o mal, mas não posso, e também sofro. Eis o que tem sido a minha vida. Tenho-a considerado digna de ser vivida e, de bom grado, tornaria a vivê-la, se me fosse dada tal oportunidade, em especial, pelo amor encontrado! (Autobiografia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967.)

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